*Mantrashakti... e O cAoS sE dErRaMa PeLo eSpAÇo........*

*A ira, Deusa, celebra do bastardo Croniada, (filho incestuoso do Caos e da Ordem) o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas trouxe, e incontestáveis almas arrojou no Hades.* **************************** "O CAOS NUNCA MORREU”.- Isto é uma Zona Autônoma Temporária. Mantrashakti, "a palavra feita carne", canto cacofônico surgido de uma trepada animalesca entre um diabo e uma santa... Sua ira despeja flores rebeldes sobre o asfalto. Seu amor desmorona prédios.

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samedi, mars 31, 2007

re(re)visão sem arrependimentos

Longo período sem novidades. É pra ver se essa merda serve para alguma coisa ou se eu sou um meta-público fiel
[Alfonso García - "Equilíbrio"]

Prefácio Desinteressantíssimo

[Aos desinteressados que frequentam esse deserto arlquinal: (Com influência de M. Andrade, após um longo periodo de desaprendimentos) ]

Não leia este prefácio

*

Nem sequer leia o que o segue.

*

Feche o livro e devolva-o à estante. Se estiver numa livraria (ou num shopping-center do conhecimento), se encaminhe à sessão ao lado (jornalismo narrativo ou auto-ajuda, eu recomendo). Se estiver em casa, jogue o exemplar no lixo ou coloque-o à vista em sua sala como objeto decorativo, sua capa é mesmo muito bonita (embora estranha – e tenho certeza que o gosto pelo exótico é uma de suas qualidades, caro [pré]leitor). Se ganhou, devolva ou troque (sebos costumam comprar este tipo de porcarias, também).

*

Feitas as advertências podemos começar a desenvolver alguma palavra. Note-se que acabamos de eliminar de nosso caminho, [pós]leitor, pedras bem duras, como cabeças, que estão interessadas no interessante, que é uma espécie de intermédio. Enfim, podemos ficar agora, nós, os que tem gosto pelo que não interessa, perdendo nosso tempo (veja bem, ainda não começamos, resta tempo para largar bobagens e ir fazer alguma grana por aí... pondere) e dialogando sobre desinteressantismos: não-ficção, não-representação do cotidiano, não-menstruação lírica nas páginas (que nojo!), não-ego, não-lágrima, não-bem escrever, não-música débil mental, não-sentimentalismos, não-racionalismos matemáticos e alienantes, não-politicagem, não-realidade, não-retrato, não-ideologia, não explicação e, ainda, muitíssimos sim´s, que aqui se afirmam pelo negativo. (O ponto central).

*

Por fim, antes de começarmos e depois das apresentações desinteressantes, sobra falar sobre essa questão da negação: não gosto de atacar – o melhor ataque é defender o que gosto – provando (não necessariamente com lógica ou ciência – já viram alguma coisa mais babaca que a ciência literária?) Questão de negativos novamente. Sobra falar também à respeito da utilidade desta perda de tempo aqui.

*

Só um ( ): (Aproveitando que ainda não começamos e, que, quando começarmos me limitarei a falar bem de coisas boas, eu gostaria de pedir um minuto de silêncio – mesmo que seja ao seu cérebro (porque hoje a leitura virou coisa de biblioteca): ...............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................obrigado.

Este silêncio serviu para criar um alegre e agressivo contraste com o grito: FODA-SE ARISTÒTELES E TODA ESSA CAMBADA (do Aristóteles aos Decartes e afins).

Obrigado. Não sou pró-exageros – eles é que são – mas, momentos de lirismo devem ser respeitados.

*

E finalmente: Apesar de desinteressante este prefácio é utilíssimo. Sua utilidade, entretanto, não é utilitarista. É gauche. Algo como uma utilidade teórica, uma teoria prática, uma prática plena. Uma soma. Já muito foi falado sobre o assunto.

*

Fim:


[Agosto de XXI]



jeudi, novembre 16, 2006

La lámina que hende la libreta

V

Si ves un monte de espumas
Es mi verso lo que ves,
Mi verso es un monte y es
Un abanico de plumas.

Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.

Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero
Es del vigor del acero
Con que se funde la espada.
(José Martí)
V

Se vês um monte de espumas
É, pois, meu verso que vês,
Meu verso é um monte, e é
Um abanico de plumas

Meu verso é como um punhal
Pelo punho brota flor:
Meu verso é fonte em estupor
Que jorra água de coral

Meu verso é de um verde claro
E de um carmim inflamado:
É um cervo machucado
Que quer neste monte, amparo.

Que ao valente agrada:
Meu verso, breve e sincero,
É de um vigor de aço austero
Com que se funde a espada.
(José Martí - Trad. Marcelo Flores)

Poeta das páginas em guerra

Aos esgotados homens de
pele seca canta negra
retinta. Balança
em ginga a disparar

a fuzilaria e arrancar
notas das guitarras
Arquipélago estrela
bruto brilho constelar

Muito da poesia de José Martí relaciona-se com sua história política, há entre sua obra e seu trabalho social e político uma estrita relação de dependência, uma alimenta ao outro e vice e versa; assim como numa cidade, sendo Havana um perfeito exemplo. Sua poética é como os prédios, que têm a arquitetura e a conservação determinada diretamente pela sua história, essa que cria, por sua vez, seu “estado de espírito”.
O gênero lírico é a plasmação de um estado de espírito, independente da intervenção de eventos temporais, e Martí, plasma com perfeição não apenas suas percepções espirituais, mas também o espírito político de seu tempo. Em sua escrita, não se envolve com fatos históricos, mas com a precisão de um violinista, que deve tocar com cuidado, pois o instrumento produz timbres demasiado agudos e para isso além de técnica, necessita sensibilidade, capta a sensação de clara experiência de seu momento histórico e político.
José Martí, chamado em Cuba de ‘apóstolo da revolução’, depois de viajar à Espanha, exilado de seu país, e, posteriormente, por toda a América, morreu em batalha liderando o levante de independência de Cuba em relação à Espanha. Sua revolução inicia-se na palavra e torna-se física. Suas maiores armas forma o sabre e a pena. Sua guerra se fez através de contundentes manifestos políticos e uma cortante poesia que nos dá a impressão de espelhar palavras através da lâmina de seu sabre. Um guerreiro poeta, assim como Odisseu “o guerreiro solerte”, quando toma para si a Lira e narra suas viagens pelos mares da Grécia.
Esse poeta transformou profundamente não apenas a sociedade cubana, como também sua tradição literária, que no período colonial estava marcada pelos valores românticos das novelas rocambolescas e da lírica derramada do romantismo, dirigidas às boas senhoras ao restrito meio intelectual composto pelos filhos da aristocracia colonial, que como no Brasil-colônia, era cerceada pelos costumes e princípios burgueses, ascendentes do fim do século XVIII.
Sua poesia, extremamente dura e afiada, que faz versos “de um vigor de aço”, e ousa imagens, aproximando-se do modernismo, como a do infante fuzilado. Pulsa em estrondoso ritmo libertário e assim introduz em seu país os versos livres, que vieram a se tornar uma marca da modernidade, em seu livro “Versos Libres”, influenciado pelas tendências européias iniciadas por Baudelaire no século XIX e que se difundiram para a Espanha aonde estudou aos 18 anos de idade.
Em suma, Martí foi um artista que, por toda a vida, trabalhou em prol dos princípios humanos e do genuíno espírito de virtude e igualdade entre os homens. Nas palavras de Fina Garciá-Marruz, importante poeta e estudiosa da obra de Martí em Cuba, “sua poesia é o terremoto das entranhas”, que traduziu sensivelmente o espírito de seu tempo, processando-os diretamente dessas entranhas, aonde se escondiam seus sofrimentos e angústias. Eliot afirma que “quanto mais perfeito for o artista, mais inteiramente separado estará nele o homem que sofre e a mente que cria; e com maior perfeição saberá a mente digerir e transfigurar as paixões que lhe servem de matéria prima”, é assim que Martí, dotado de mente libertária e um vasto espírito, transformou, bruscamente, a realidade na qual viveu e é lembrado por toda Cuba como o “Apóstolo da Revolução”.

lundi, octobre 23, 2006

pois a vida é um pêssego seco - seu odor é luz

Só a literatura nos proporciona falar das nossas proprias vidas, da vida alheia e da própria literatura ao mesmo tempo - mantrashakti gostaria de pedir desculpas aos leitores (imaginários) por faltar com a periodicidade. Mantarshakti jamais se arrepende do que faz, o Caos derrete relógios.
Poema do ano, ou Bolo Fácil de Nozes
Ingredientes:
- 6 ovos (gemas e claras separadas)
- 1 1/2 xícara (chá) de nozes picadas
- 1 pacote de biscoito tipo maizena triturado grosseiramente
recheio -
- 2 latas de leite condensado
- 1 colher (sopa) de chocolate em pó
- 1 gema
Modo de Preparo:
1 Aqueça o forno a 180ºC. Bata as claras com a metade do açucar. Reserve. Bata as gemas a manteiga e o açucar restante. Junte as claras reservadas as nozes e o biscoito e misture delicadamente até ficar homogêneo.
2 despeje em uma assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno por 30 minutos aproximadamente. Deixe esfriar e corte ao meio. Reserve.
Recheio: Leve ao fogo o leite condensado, o chocolate e a gema e cozinhe até engrossar, sem parar de mexer. Espalhe o recheio sobre uma das partes do bolo e sobreponha a outra metade do bolo. Use o restante do creme como cobertura.

Desculpe-me meu amor... Eu queria sentir mais do que uma receita de bolo. Vou tentar esquecer... Talvez vá para o baile hoje. meu amor, meu doce romã, eu me esqueço das receitas de bolo...

mercredi, octobre 04, 2006

Marché!


Chovia em São Paulo. As águas apertavam as telhas e eu corria para me abrigar da chuva. Era um domingo quase qualquer, exceto pelo fato de que era dia de eleição.
Eu estava no Museu de Arte Brasileira que recebia o acervo de estátuas e peças de arte grega clássica do Museu de Pergamon em Berlim e, como um bom estudante de letras clássicas em épocas de prova, sendo que a da próxima segunda-feira seria sobre a tragédia grega, estava com um exemplar de bolso do Agamêmnon de Ésquilo. Após assistir às obras e ler um pouco, corri para um botequim próximo ao museu, ao pé da praça Vilaboin.
Lá, por uma grata coincidência, encontrei com Rodrigo, um amigo de infância. Ele é, como eu, jovem e se interessa muito pela senda das artes e da comunicação. Sua área, diferente da minha, que é obscura demais para um tempo tão dinâmico como este, é a de audiovisual; dedica o seu apreço ao gênero do Documentário, sendo um diretor em potencial.
Aproveitamos a boa coincidência e as condições impostas pela chuva para sentar, beber um pouco e papear:

M: Putz! Que chuvarada! Estes tempos estão uma maluquice só, hoje de manhã fazia um tempo bom, típico da primavera...
R: Pois é. – acenando para o garçom - Quase que não venho...
M: E o que veio fazer por aqui? Veio à exposição também?
R: Não. Vim à livraria, aqui ao lado, comprar um livro para a faculdade – depois de pedir uma cerveja -. Você estava no MAB?
M: Sim. Fui votar e depois vim para cá. Impressiona-me muito essa arte feita há mais de cinco séculos ter sobrevivido ao tempo e às instituições humanas até chegar aos nossos olhos... – dei um imenso gole -.
R: Pode crer. Inclusive, as suas atividades de hoje parecem estar bem relacionadas não é? Que é isso aí na mesa? Tragédia grega?
M: Sim. É a primeira parte das Oréstia, trilogia de Ésquilo sobre os Argivos.
R: Ahahahaha. Tragédia é um gênero bem propício para um dia como hoje.
M: Votou?
R: Claro! - disse, depois de esvaziar seu primeiro copo em três estratégicas tacadas -. Como não? Alias, você reparou no clima das eleições?
M: Clima... Como assim?
R: Bom, eu saí de lá com a sensação de estar num cemitério velando pela democracia do meu país...
M: Bela imagem, rs...
R: Você reparou no jeito que as pessoas votam? Como se estivessem cumprindo a solene obrigação de apertar uns botões para não serem multadas. Ou, sei lá, na melhor das hipóteses, escolhendo uma marca de pasta de dentes, que no fundo pouco importa se vai ganhar no resultado do ibope ou não, já no fim das contas nada vai mudar em seu cotidiano...
M: Não reparei não... Estava muito preocupado com as Oréstias que lia na fila. Embora eu concorde com você, esse clima de eleições me entedia.
R: O quê? Como assim? Eu pensava que você tinha mais consciência política... Não me conformo com o desinteresse das pessoas em participar dos assuntos da sociedade, quanto mais vindo de você, um cara que tem pleno acesso à informação e esclarecimento.
M: Calma aí, não me confunda com um niilista estúpido qualquer que se conforma com a merda na qual está atolado. O meu tédio vem de outras razões e aqui você tem de concordar comigo, devemos agir politicamente, não basta apenas escolher uma postura política se não se vive de acordo com ela.
R: Ta bom. Nesse ponto você tem razão. Mas, me parece uma desculpa deslavada essa história de manifestar protesto não prestando atenção às eleições. Dessa maneira, fica parecendo que você está se colocando em pé de igualdade com aqueles que vão votar pensando no sabor do sanduíche que vão comer depois de encarar aquela fila de merda.
M: É aí que você se engana... - hesitei enquanto o garçom nos servia a próxima rodada -. Por favor, Rodrigo, você é um dos que sabe o quanto é fina a linha que separa o sabor de uma Antártica – apontei para a garrafa - ao de uma Erdinguer... Vamos começar por aqui. Em quem votou?
R: Certo, para presidente, votei na Heloisa Helena. Para governadora no Plínio Arruda Sampaio, senador, na Erundina e para deputados votei nos candidatos do PV.
M: Tá e por quê?
R: Ué, porque acredito que estão bem qualificados para administrar o país... O Plínio, por exemplo, é de esquerda, mas se afasta desse radicalismo revolucionário e apresenta um projeto reformista e sóbrio muito interessante. Embora, uma pena, segundo as pesquisas, nenhum deles vá se eleger.
M: É o Plínio é um bom político. No sentido essencial da palavra. Quando eu assisti o debate entre os candidatos a governador do Estado, reparei nele como o único entre os candidatos disposto a discutir questões políticas e ideológicas, relacionando-as com as questões nacionais. Agradou-me a forma como ele invocou o país para encarar o seu verdadeiro momento histórico, ao invés de ficar nas rédeas da política internacional, obedecendo a ordens das potências e do FMI. É, também completo. Um bom orador, estrategista, administrador e pensador. Chegou até a citar umas falas do Celso Furtado...
R: Então, vejo que pensa como eu. Em quem votou?
M: Sim, é aí que entra o problema essencial. Anulei todos os meus votos.
R: Ta de sacanagem? Você é louco ou idiota? Pra mim, anular tudo é deixar de participar, é deixar com que o Lula se reeleja, com que um filho da puta tipo o Maluf volte à política, permitir que o freakshow continue...
M: Muito bem. Mas não foi você mesmo que disse que não acredita que os seus candidatos vão se eleger? Essa atitude não mostra o mesmo comportamento, praticamente?
R: ... – bebendo em silêncio -.
M: Além disso, segundo as pesquisas, na presidência, por exemplo, é Lulua ou Alkimin... Pra mim, bosta do mesmo cu, não importa... De um lado um corrupto stalinista e maquiavélico que acha que pode comprar votos na câmara pra fazer “o bem” e do outro, um neoliberal de merda que pretende cheirar a cueca do Bush e tirar o seu quinhão da grana pública para manter o staus quo.
R: Então você resolveu chutar o balde e apostar duro na postura do “tanto-faz”?
M: De jeito nenhum. Aí entra a sutileza que faz de uma Erdinguer o oposto de uma Antártica. O que é Democracia?
R: É o governo povo, como você sabe bem, senhor estudioso do mundo clássico... È a governo regido pelo debate, discussão e acordo entre as idéias, ideais e necessidades de todos.
M: Dois pontos. Primeiro, a Democracia não existe nesse país, portanto, o ato de votar se reduz uma auto-enganação em busca de uma estabilidade manca, já que não temos uma população politizada e culta o suficiente para depreender do maldito discurso publicitário, feito pelos políticos, uma discussão que conduza a população a um debate efetivo que faça parte, efetivamente, do cotidiano das pessoas. Não há mecanismos que discutam e exponham a vida política do povo ao povo, como fazia a tragédia grega no cerne da Democracia – parei, interrompendo, bruscamente a excitação do discurso -.
Segundo, a democracia é o governo da razão, como diz Vernant. Já sabemos que a razão acima de tudo não dá conta de esclarecer as questões humanas, é necessário além dela, que se esteja em contato com a tradição, que nos lembra de nossos ancestrais e nos conecta com o sonhar, o Mito, a justiça natural. A meu ver, é necessário que se conciliem e harmonizem os conflitos entre o humano e o natural, o segundo representado, para os homens, pelo pensar mitológico, que por sua vez, guia a razão, mostra-nos até onde podemos ir com ela.
R: Então você está dizendo que sem mito não há possibilidades de se viver em democracia?
M: Pode crer.
R: Então, você acha que vivemos uma farsa?
M: Exatamente numa farsa. E por isso, acredito severamente que devemos fazer exatamente o que nos convém. E para sermos homens livres me parece muito mais eficiente negar esse sistema imundo do que penetrá-lo e jogar seus jogos...
R: Então, ao invés de se preocupar com os candidatos da eleição você foi até a zona eleitoral lendo um livro que representa um mecanismo de discussão da Democracia e descarregou dele seu protesto contra a não-democracia em que vivemos, em forma de votos nulos?
M: Sim, por meio do meu desinteresse, eu manifestei a minha opinião de que devemos antes discutir o sistema político, pois ele está extremamente deteriorado. O voto nulo funcionou, nesse caso, como um sintagma zero, que mostra sua presença através da ausência. Significa sem significar expressivamente, por mais que os outros sintagmas do texto finjam ignorar sua presença, ela está lá, se coloca, chega mesmo a incomodá-los.
R: Não sei, consigo entender seu ponto de vista, mas não sei se concordo com ele. Preciso pensar um pouco mais sobre o assunto.
M: Ótimo então a discussão valeu a pena.
R: É mesmo – esvaziando o copo -.
M: Veja, a chuva acabou de parar.
R: Ah, que bom, tenho que ir estou trabalhando num projeto de documentário que parece estar interessando uns patrocinadores...
M: É mesmo? E sobre o que é?
R: Sobre a solidão em meio à multidão urbana... Já reparou o quanto as pessoas ficam caladas e solitárias, por exemplo, dentro de um ônibus, local aonde passam e se encontram todos os dias...
M: Que legal! Quero saber mais sobre ele...
R: Inclusive quero que participe.
M: Ótimo, vou pensar em algo, botar no papel e te ligo no domingo que vem.
R: Combinado então. Vou indo até mais.

Entornei a bebida enquanto meu bom amigo pagava e ia embora. Abri o livro. Eu estava quase terminando de lê-lo e resolvi fazer isso ali mesmo antes de ir embora:

“CLIMNESTRA
(Dirigindo-se primeiro a EGISTO e depois aos anciãos.)

Não, por favor, amado meu! Não desencadeemos mais desastres!
São excessivas as desgraças ocorridas (dolorosa messe!).
Estamos fartos de aflições. Já basta o muito sangue derramado.
Ilustres anciãos! Deveis agora retornar aos vossos lares;
deveis curvar-vos antes que vos cheguem males novos e maiores.
Era fatal o que fizemos; aceitemos resignadamente
as muitas atribulações passadas, golpes quase insuportáveis
que algum espírito funesto desferiu, seguidos sobre nós.
Palavras de mulher também são dignas de atenção; ouvi-as pois!

EGISTO: Mas eles continuarão lançando contra mim palavras ásperas
e vomitando imprecações que lhes trarão maiores sofrimentos.
Perderam a medida da prudência e mesmo ultrajam seus senhores!

CORIFEU: Não é da natureza dos Argivos adular homens vis!

EGISTO: Verei chegar em breve o dia de vingar-me deste atrevimento!

CORIFEU: Não verás esse dia! Um deus há de guiar Orestes para cá!

EGISTO: Sei bem que os exilados se alimentam de esperanças ilusórias.

CORIFEU: Prossegue! Adorna com sarcasmo, enquanto podes, teus nefandos crimes!

EGISTO: Serás sem falta castigado pelas insolências ora ditas!

CORIFEU: Ostenta força alheia, galo presunçoso perto da galinha!

CLIMNESTRA
(Dirigindo-se a EGISTO e levando-o para o palácio.)

Não dês valor a tais latidos. Eu e tu, senhores do palácio, teremos o poder bastante para pôr em ordem tudo e todos.

FIM”

Nota acerca do tédio e da república democrata

DEMOCRACIA
A bandeira se agita na paisagem imunda, e nossa gíria abafa os tambores.Nos centros, alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.Em países dóceis e picantes! - a serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.Adeus aqui, não interessa onde. Legionários de boa vontade, nossa filosofia será feroz; ignorantes sobre ciência, esgotados pelo conforto; que esse mundo se rebente. Esse é o verdadeiro avanço. Em frente, marche!
(Arthur Rimbaud)

"- Palavras como estas e todas da mesma espécie, pediremos vênia a Homero e aos outros
poetas, para que não se agastem se as apagarmos, não que não sejam poéticas e doces de escutar para a maioria; mas, quanto mais poéticas, menos devem ser ouvidas por crianças e por homens que devem ser livres, e temer a escravatura mais do que a morte."
(Platão - A República, Livro III)